De onde vem a palavra "beta" na escalada?

De onde vem a palavra "beta" na escalada?

Se você escala, já usou ou ouviu essa palavra. "Qual é o beta dessa via?" "Alguém tem beta pro crux?". "Beta" é, hoje, sinônimo universal de informação sobre como fazer uma via ou um boulder: sequência de movimentos, posição de mãos e pés, onde descansar, onde está o ponto fraco.

Eu mesmo uso quase toda vez que escalo com alguém, sem nunca ter parado pra pensar de onde ela vinha.

Até que, outro dia, resolvi puxar esse fio e descobri uma história que eu não esperava, envolvendo um cara chamado Jack, uma fita cassete que perdeu uma guerra tecnológica, e um parceiro de escalada que merecia ser mais lembrado do que é.

Jack Mileski era texano, mas fez história mesmo nos Gunks: os Shawangunks, em Nova York, um dos berços da escalada tradicional americana. Anos 70, 80. Ele tinha duas coisas que o diferenciavam: uma memória quase fotográfica pra sequências de escalada, e um hábito bem incomum pra época: filmava as próprias vias em Betamax, aquele formato de fita que a Sony lançou pra brigar de igual pra igual contra o VHS. Perdeu a guerra, como todo mundo sabe hoje. Na época, ninguém sabia ainda.

Ele dividia essas fitas com o parceiro de cordada, Mike Freeman. E aqui eu preciso parar um segundo, porque Freeman não é só um nome que aparece de passagem numa piada. Foi um dos pioneiros da escalada nos Gunks entre o fim dos anos 70 e os 90, abriu vias como Nector Vector e French Connection, hoje ainda referência de dificuldade na região (5.12d, pra quem escala em graduação americana — algo perto de 7c no francês, IXa no brasileiro). Fora da parede, trabalhava como desenhista técnico na Universidade de Princeton, onde, em 89, projetou parte do muro de escalada indoor de lá. Gosto de imaginar os dois trocando essas fitas Betamax entre uma escalada e outra, sem fazer ideia do que estavam prestes a criar.

Porque foi numa dessas conversas, por volta de 1981, que Mileski estava descrevendo pro Mike a sequência de uma via difícil a Kansas City (5.12a, algo em torno de 7a+ no francês, VIIIa no brasileiro) e brincou: "deixa eu rodar a fita Betamax pra você..." E emendou: "aqui está o beta, Mike!"

Dito rápido, "beta, Mike" soa quase igual "Betamax". Só isso. Uma piada bobinha de parceiro de cordada. Mas pegou entre o grupo. Se espalhou pelo setor inteiro dos Gunks, depois pelos Estados Unidos inteiro, depois pelo mundo até chegar até mim, décadas depois, do outro lado do planeta, sem eu fazer a menor ideia de onde vinha.

(Vale uma ressalva: como toda gíria que nasce de boca em boca, essa reconstrução vem de memória de quem estava lá… não existe gravação do momento exato. Mas é a versão que mais aparece em fontes sérias, tipo a Climbing Magazine, e a que hoje se aceita como origem do termo.)

O que eu mais gosto nessa história não é nem o trocadilho em si. É o que ele revela sobre como a escalada sempre funcionou: conhecimento passado de cordada em cordada, boca a boca, entre gente que confia uma na outra o suficiente pra dizer "eu vi você tentando, deixa eu te ajudar". Às vezes eu aceito esse gesto. Às vezes prefiro recusar, ir no onsight, resolver sozinho. Não tem certo ou errado, só duas formas diferentes de se relacionar com a parede.

O Betamax morreu há décadas. Curiosidade de museu, hoje. Mas a palavra que ele deixou pra trás sobreviveu ao próprio objeto que a criou e segue viva.

Acho isso bonito. Uma palavra que atravessou o tempo mais que a máquina que a inventou.

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