Uma espanhola, cinco vias e o Brasil que ela escolheu escalar
Para compartir
Existe uma sensação de grandeza quando você chega ao cume.
O esforço consciente de cada movimento.
A responsabilidade plena de cada um dos seus atos,
A alegria que uma parede pode te proporcionar na vida é difícil de explicar.
Hoje venho homenagear e reconhecer 5 paredes do nosso PAís TROPIcal.
Escolhi essas vias com muito amor e admiração, pela lembrança que vivi em primeira pessoa em cada uma delas. Algumas são famosas, mas se as escolhi não foi pelo sucesso e sim pela diversidade, que é uma das principais características da escalada brasileira.
Quando falo de parede, me refiro à sucessão de vários lances de escalada conectados entre si que permitem alcançar o cume de uma montanha ou pedra. Isso é necessário porque uma única corda de 60 metros não basta para vencer, por exemplo, uma parede de 220 metros de altura.
Para resolver essa limitação, há muitos anos começou a se desenvolver esse tipo de ascensão, que hoje se conhece como vias de múltiplas enfiadas. Na Espanha chamamos esse tipo de escalada de multilargo. Num exemplo simples, uma parede de 110 metros se divide em vários trechos mais curtos: 25 metros, reunião; 30 metros, reunião; 25 metros, reunião; 30 metros, reunião; e, finalmente, o cume. Assim, cada reunião marca o final de um lance e o início do seguinte, permitindo progredir com segurança até o topo.
Dentro dessa ideia, a dificuldade será determinada pela soma total de todos os trechos/enfiadas, que marcarão o grau final. Além disso, nos croquis aparece o grau máximo que você vai enfrentar, podendo ser apenas um passo ou uma enfiada completa.
5 MULTILARGOS DO PATROPI (PAÍS TROPICAL = BRASIL)
Sou Sofia Poblete, espanhola de nascimento mas de coração mineiro e com CPF brasileiro, escolhi como uma das primeiras paredes a descrever a via CLANDESTINO, por ficar no estado de Minas Gerais, para mim a gema do ovo brasileiro, e por ter uma boa lembrança dessa experiência que vivi escalando essa parede com a cordada de Vinicius, paulista de nascimento, mas com o coração da chapada baiana.

Clandestino 6º VIIa E2 D2, 175m — Serra da Cambota — MG
EQUIPAMENTOS:
Equipamento necessário:
- Duas cordas de 60 metros.
- 14 costuras (30 cm ou mais).
- Uma fita de 120 cm.
- Dois camalots de tamanho médio.
- Descida: Rapel pela via Ecdemomania.
Conquistadores: André Coutinho, Breno Araújo, Gustavo Vianna e Vitor Marques, ano 2013





APROXIMAÇÃO:
A aproximação a essa grande pedra no meio do parque da Serra da Cambota pode ser feita no mesmo dia, começando à direita do restaurante do Canela de Ema Adventure Park, onde fica a entrada da trilha, até o pé da via.
Ou você também pode escolher dormir no camping do Canela de Ema, e poder admirar de longe o relevo e a silhueta do que você vai escalar no dia seguinte.
DESCRIÇÃO:
As enfiadas dessa via aérea se concentram da P2 até a P4, sendo uma variedade de estilos, com qualidade de movimentos e sensação de liberdade únicas.
P2 são movimentos mais técnicos, parecidos com uma escalada esportiva de placa.
P3 é uma canaleta gigante onde você vai precisar controlar a mente e a força para não se deixar levar pelo medo (ou pelo menos foi isso que eu senti guiando).
P3 é o "crux" de dificuldade da via, onde você vai encontrar um teto constante que dá o grau do VIIa, onde Vinicius guiou com desempenho e protegeu com muito engenho, com costuras longas e as duas cordas, em harmonia.
DESCIDA:
Para a descida, você vai precisar rapelar por outra via, que eu tenho que reconhecer que foi levemente difícil de encontrar e entender todos os rapéis, mas que ao final te recompensa ao descer 175 metros podendo admirar a paisagem que a Serra da Cambota esconde.
Se você mora em Minas Gerais, ou se você é amante da altura, você tem que escalar a Canela de Ema.

K2 4º V E2 D1, 140m — Corcovado — RJ
EQUIPAMENTOS:
Equipamento necessário:
- 8 a 10 costuras, sendo 4 longas.
- Jogo de cams médios (aproximadamente do #0.3 ao #2) para complementar as proteções, especialmente na primeira enfiada.
- Stoppers médios.
- Fitas de 60 cm e 120 cm para prolongar proteções e organizar as reuniões.
Aperturistas: aberta em 1962 por três escaladores que marcaram uma época na escalada carioca: Etzel Ritter von Stockert, José Roberto Costa ("Doca"), Roberto Fischer ("Alemão").
A história deles é especialmente interessante porque representa a transição para uma escalada mais técnica e moderna no Rio de Janeiro.


APROXIMAÇÃO:
A aproximação fica fácil se você for com um escalador local, pois eles sabem onde estacionar e como subir. Mas, se não for o caso, vale buscar croquis na internet que podem ajudar.
O que eu mais lembro dessa aproximação é a floresta densa que acompanha o caminho, até a vista lá do cume.
DESCRIÇÃO:
Uma das dicas do livro das 50 clássicas do Brasil diz assim:
Procure estar escalando no grau exigido pela via, tanto em diedro como em aderência e agarras, já que o grau de exposição é E2. A rocha é de excelente qualidade.
E eu confirmo demaiiiiis. Em geral, para escalar no Rio de Janeiro você tem que estar preparado para; perrengue passar, sentir as panturrilhas trabalhando e compartilhar diversão em sua máxima expressão.
Características da escalada:
- 1ª enfiada: grande diedro em fenda (crux da via).
- 2ª enfiada: travessia aérea em aderência e o famoso "Lance do Crucifixo".
- 3ª enfiada: rampa fácil.
- 4ª enfiada: "Lance do Palavrão", protegido preferencialmente com móveis.
- 5ª enfiada: placas fáceis até o Cristo Redentor
DESCIDA:
Para a descida, você pode descer de rapel sabendo que precisa ir com uma corda de 60 metros, já que no trajeto você vai encontrar diagonais difíceis de redirecionar, mas que dá pra fazer.
Ou você também pode descer de van ou caminhando, uns 30 min aproximadamente.

O Jardineiro, 6º VIIa E2 D3, 295m — Enxadão — BA
EQUIPAMENTOS:
Equipamento necessário:
- Duas cordas de 60 m.
- 12 a 14 costuras.
- Jogo pequeno de cams (#0.75–2).
- Algumas fitas longas.
Conquistadores: Adilson Otto, Filipe Silva e Leandro Poka, ano 2011


APROXIMAÇÃO:
Como Itatim se caracteriza por ter aquela planície impressionante, onde você pode chegar de carro até o pé das montanhas, nesse caso não podia ser diferente.
A parede do Enxadão fica um pouco mais afastada do resto dos outros morros clássicos de Itatim, mas permite uma aproximação de 15 min para começar a escalar O Jardineiro.
Você também pode dormir no abrigo da Rocaia, de onde dá pra admirar de longe a linha que no dia seguinte você vai escalar, sentir o frescor, escutar os sons dos animais que vivem ali, o vento daquele lugar, descansar numa cama confortável e sair pra escalar no dia seguinte.
Uma experiência que eu recomendo.
DESCRIÇÃO:
Começamos a escalada praticamente de madrugada, pois em Itatim, para o bem ou para o mal, chove e estia com a mesma rapidez, nunca dá pra saber ao certo quando vai começar ou parar.
É uma escalada predominante de placas verticais, regletes e agarras naturais. Não é uma via de fissuras; a escalada é muito técnica em cima de presas pequenas.
E de fato foi assim: uma escalada de dificuldade muito sustentada, pelo menos pra mim, e bastante longa.
A grande pena foi que a própria natureza não nos deixou fazer cume: no meio da parede, uma chuva forte nos sacudiu e nos obrigou a recolher as asas e descer ainda na P6, a apenas 3 enfiadas de vermos o topo.
A escalada tem essa magnificência, que nos lembra que somos apenas meros mortais e que não controlamos a beleza com que a Pachamama habita em cada canto do mundo. E claro, nessas terras, a Pachamama vive à vontade.

DESCIDA:
Segundo a informação que tínhamos da grande bíblia das 50 clássicas do Brasil:
a descida é feita pela própria via com apenas uma corda de 60 m. Há paradas duplas. Normalmente não é difícil rapelar por ela à noite, já que há bastante grampos para se orientar e a descida é praticamente em linha reta, com exceção do trecho final da via.
Assim foi.

Vía Elektra, 4º V E2 D2, 295m- Ana Chata- SP
Equipamento necessário:
- 8 Costuras, sendo 6 longas.
- Camalots .5 ao 2 e stoppers médios.
Conquistadores: Eliseu Frechou, Saulo de Tarso e Beth Borges. Ano 1990

APROXIMAÇÃO:
Essa foi a via que ficou faltando pra eu fechar o quinto estado escalado no Brasil — um desejo enorme que, infelizmente, não posso contar em primeira pessoa.
Mas ouvi bastante sobre ela: todo mundo que escalou fala com brilho nos olhos, contando da satisfação de ter feito cada movimento daquela parede.
Ana Chata faz parte do conjunto de montanhas da Pedra do Baú, e é a que reúne o maior número de vias tradicionais de nível médio da região.
A aproximação leva uns 45 minutos, passando bem em frente à casa do Sr. Chico Bento.
DESCRIÇÃO:
Pra atacar essa via direito, o ideal é madrugar — assim você ganha margem de erro caso se perca na trilha, ou tenha dificuldade pra achar o início do pé da via. E também tempo de sobra pra fazer as 5 enfiadas com calma.
Como fica virada pra face norte, pega sol o dia inteiro.
DESCIDA:
A recomendação é descer só caminhando — não dá pra guiar as cordas direito pra rapelar a partir da P4.

Via Normal, 3º IV E2, D2, 370m — Pedra Azul — ES
Estou consciente de que essa via talvez não seja a mais chamativa pelo seu grau fácil, mas para a Patropi ela é uma via muito especial, pois foi aqui que fizemos Bruno e eu a primeira parede com a primeira calça cargo que fabricamos.
EQUIPAMENTOS:
Equipamento necessário:
- Duas cordas de 60 metros.
- 10 costuras (médias e longas).
- Mosquetões para as reuniões.
Conquistadores: Associação Capixaba de Escalada em 2015
A via está equipada com chapeletas de inox em todas as enfiadas e paradas triplas (dois grampos e uma chapeleta com argola), oferecendo um nível de proteção considerado E1
⚠️ Importante: A escalada ocorre dentro do Parque Estadual da Pedra Azul. É obrigatório realizar agendamento prévio e preencher o termo de responsabilidade antes da ascensão.
APROXIMAÇÃO:
A aproximação leva cerca de 1h a 1h30, por uma trilha bem marcada dentro do Parque Estadual da Pedra Azul. No topo, é possível visitar as famosas piscinas naturais antes da descida.
Quando fomos atacar essa via, amanhecemos no camping da reserva natural, que vale a pena passar uma noite (pelo menos), pra admirar com calma essa pedra imponente.
Vale citar que, infelizmente, a via Normal fica no lado contrário da icônica fotografia da Pedra Azul, dando a volta por trás do tal "lagarto".





DESCRIÇÃO:
A via não apresenta mais que um lance de dificuldade máxima de IV grau, o que torna a escalada realmente gratificante, se você tem costume de escalar em aderência, ou pelo menos tem fluidez em graus mais altos.
Ainda assim, é uma via boa pra iniciar alguém no mundo da escalada no mundo das paredes.
DESCIDA:
A descida é feita pela mesma via, com duas cordas de 60 metros.
Enquanto escrevia o texto, precisei, de forma natural, fechar os olhos para me conectar com a sensação que já vivi várias vezes nesses cenários e me teletransportar por microssegundos para todas essas grandes paredes que já escalei. E fui capaz de sentir coisas muito sensíveis nessas lembranças; sensações do tipo do vento que fazia naquele dia na pedra, a sensação de ter os olhos levemente mais abertos que em outros dias, sentir mais leve o peso do meu corpo na minha linha de ancoragem, consigo até sentir na mão a sensação da corda circulando para ir até meu companheiro acima de mim e sentir a coragem compartilhada.
As vias de múltiplas enfiadas implicam grandes conquistas: a conquista da coragem pessoal, colocar em prática o conhecimento, o exercício de confiar, a capacidade de reação, a tomada de decisões com a cabeça fria, ser arriscado e ao mesmo tempo cauteloso, e tudo isso se aplica em dobro, já que esse exercício não é unilateral, é uma conexão direta com a outra pessoa que você escolheu se conectar e que te espera do outro lado da ponta da corda. É, sem dúvida, para mim, a forma de expressão de vida mais bonita que eu conheço.
E é preciso reconhecer o mérito de todos aqueles conquistadores que um dia abriram o caminho e marcaram a trilha para nos deixar passar. E também de todos os que, como nós, amamos e respeitamos o mundo vertical, e tentamos aproveitar e compartilhar essa paixão do nosso jeito.
Foi com esse mesmo carinho que investi tempo e pesquisa neste post e que vejo diariamente o Bruno desenvolvendo a modelagem tão específica da nossa calça cargo, fazendo vários ajustes até aperfeiçoá-la, para que ela se tornasse uma peça importante e contribuísse para que a experiência esportiva seja o mais confortável possível.
Por trás de tudo isso, somos apenas uma humilde equipe que tenta trabalhar com sinceridade e amor para que vocês possam aproveitar e sentir aquilo que é bonito por natureza.
Convido vocês a conhecer nossas calças, a compartilhar nas redes sociais, a me dar um feedback se algo pode melhorar, ou se simplesmente você quer somar positividade ao nosso trabalho, agradeço por fazer parte dessa grande família Patropi.
E sigo por aqui tentando dar o meu melhor, em honra ao país de vocês que quando conheci ficou claro porque é chamado de bonito por natureza.