Da rocha à resina: a história da escalada indoor

A escalada tá na moda. Fato. Entrada nas olimpíadas, uma geração com hábitos mais saudáveis e a busca por socialização fora das telas são apenas alguns dos motivos que explicam o crescimento da modalidade no Brasil e no mundo. Dados da Confederação Brasileira de Escalada mostram que o número de ginásios privados de escalada indoor no país foi de 28 em 2018, para 95 em 2026. Indo além do aspecto financeiro (já que as diárias não costumam ser baratas), ginásios costumam ser o caminho mais acessível para iniciar no esporte: ambientes controlados e seguros, dentro da cidade, com diferentes níveis de dificuldade e um espaço favorável para a construção de novas amizades. Não à toa a escalada indoor tem sido o primeiro contato de grande parte das pessoas que começam a escalar atualmente, assim como foi o meu.

Lembro que quando comecei a escalar na Granito Escalada, em 2024, eu perguntava pra minha professora do muro se aquelas agarras tão boas (as famosas “conchas” e “telefones” das vias mais fáceis do ginásio) de fato existiam na rocha. Hoje olho pra trás e vejo que era uma pergunta bem pouco inteligente (sendo gentil com meu eu do passado), já que foi a escalada indoor que se inspirou na natureza para modelar as pegadas na resina, e não o contrário. Me lembrei dessa pergunta esses dias, o que me fez refletir sobre como a escalada em paredes artificiais surgiu, e como isso afetou o desenvolvimento da escalada como modalidade esportiva, e consequentemente a relação pessoal de cada escalador com a prática. Vou passear por todos esses assuntos (e o que mais vier na cabeça) nesse meu 2º texto para a Patropi News, acompanha aí!

Apesar de haver registros de uma parede de pedras escaláveis em Seattle no final dos anos 30, a escalada em paredes artificiais começou a ser desenvolvida com mais força mundo afora apenas a partir dos anos 60, apesar das informações acerca do real pioneiro serem bem imprecisas. Algumas fontes dizem que o muro de escalada da Universidade de Leeds, construído pelo professor de educação física Don Robinson em 1964, foi a primeira estrutura interna para escalada do mundo. Porém, outras apontam que o verdadeiro pontapé inicial para o surgimento da escalada indoor foi dado por um montanhista ucraniano, na década de 1970. Ele resolveu fixar pedras na parede de casa para que pudesse treinar mesmo com neve caindo lá fora, ideia rapidamente difundida entre os escaladores locais. Como em grande parte das inovações tecnológicas ao longo da história, o pioneiro é “apenas” o representante de um movimento que estava acontecendo em diferentes lugares do mundo em certo contexto histórico.

Nos Estados Unidos, país que possui mais ginásios de escalada no mundo atualmente (quase 700), a parede de escalada construída em 1975 na Universidade de Washington foi importantíssima para que a ideia de escalar em uma estrutura artificial fosse difundida. Àquela época vários escaladores já praticavam o “buildering” (escalada em estruturas urbanas) inclusive colando agarras no concreto da cidade de Los Angeles, formando toda uma cena em torno dessa prática. Também já era comum colar pedaços de madeira em paredes de garagem para praticar a força de mão, algo parecido com os fingerboards de hoje em dia. Porém, a verdadeira virada de chave para o surgimento dos ginásios de escalada mais ou menos como conhecemos hoje veio diretamente do berço do montanhismo mundial.

O escalador francês François Savigny teve a brilhante ideia de fazer as agarras de plástico, ao invés de pedra ou madeira, além de introduzir o orifício para parafusos, permitindo que as peças pudessem ter suas posições alteradas livremente na parede. Ou seja, esse francês tem uma boa parcela de culpa da raiva que você sente do routesetter do seu ginásio hoje em dia hehe. Nos anos seguintes Savigny fundou a Entre-Prises e começou a vender agarras para escaladores, além de instalar paredes de escalada em escolas, construções municipais e parques, ainda um pouco distante do que viriam a se tornar os ginásios de escalada. Esses, no modelo comercial que conhecemos, iriam surgir no ano de 1987 com o Terres Neuves em Bruxelas, na Bélgica. Nesse mesmo ano foi criado o Vertical Club em Seattle ainda com pedras coladas diretamente na madeira, já que a Entre-Prises ainda não importava as agarras de resina pros EUA. Funcionários da Metolius (tradicional marca de equipamentos de escalada) que foram responsáveis pelas primeiras agarras moldadas dos EUA contam que as primeiras versões eram “horríveis, dolorosas e com texturas irregulares”. Bom, se o propósito inicial dos ginásios era treinar para a rocha, até que as agarras tavam bem apropriadas, não é mesmo?

Esse era o pensamento de Paulo Gil, fundador da 90 Graus, o primeiro ginásio de escalada do Brasil. Criado com o propósito de ser uma porta de entrada para a escalada em rocha, as paredes do ginásio possuíam agarras criadas pelo próprio dono. Numa entrevista pra Folha de São Paulo ele conta que queria as agarras o mais parecidas com rocha possível; em textura, dureza e temperatura. Nessa mesma entrevista, fica claro como Gil tinha uma mentalidade à frente do seu tempo. Obviamente a 90 servia como um ambiente de treinamento para quem já praticava o esporte, tendo sido inclusive parte importantíssima do desenvolvimento da escalada esportiva brasileira. Cesar Grosso, Felipe Ho e André ‘Belê’ Berezoski são alguns dos nomes que têm sua trajetória intimamente ligada a esse local histórico para a escalada nacional. E essa relação entre o ginásio e os atletas denota outro aspecto em que a escalada indoor foi absolutamente fundamental: o desenvolvimento da escalada de competição. Você pode ter certeza que a entrada da escalada nas Olimpíadas, em Tóquio 2020, foi resultado de um processo de muitas etapas, várias citadas nesse texto, tendo se iniciado de forma mais organizada lá em 1988 com a primeira competição internacional de escalada, realizada pela UIAA em Utah, nos EUA.

Mas voltando à 90º, vale dizer que desde o começo a performance não era o princípio que movia o funcionamento do ginásio. O acolhimento a todos que chegavam ali, principalmente aquela pessoa que não se identificava com esportes, sempre foi uma marca registrada. Afinal, se um ginásio não é um ambiente agradável para quem chega ali, seja na busca por um centro de treinamento ou na busca por um hobby novo, aquele espaço não está cumprindo o papel que deveria. Esse foi um aspecto encantador que percebi quando fui à Fábrica Escalada, provavelmente o ginásio com a estrutura mais completa do Brasil hoje. Ao mesmo tempo em que tinha o clássico grupo completamente fissurado nos boards que a Fábrica oferece, o espaço também era frequentado em grande número por pessoas que claramente estavam iniciando sua relação com o esporte, ainda usando a sapatilha de aluguel.

Na minha percepção esse acolhimento é o principal motivo que faz com que as pessoas retornem aos ginásios depois de terem o primeiro contato. Numa sociedade em que as interações sociais são cada vez mais apressadas e a atenção às questões do outro está cada vez mais dispersa, os muros funcionam como um espaço de resgate da concentração, cada vez mais rara em nossa rotina atualmente, e de relações pautadas mais pela realidade e menos pelas intempéries do digital. Não é incomum ouvirmos relatos de pessoas que num momento de mudança, sejam mudanças pessoais, emocionais ou até mesmo de cidade, tiveram o ginásio local como um meio para conhecer novas pessoas e a partir daí a escalada foi preenchendo uma parcela cada vez maior na vida delas. Acho que esse é um ponto comum na relação de grande parte dos escaladores mundo afora, seja na resina ou na rocha. A Senhora Escalada chega despretensiosamente, fingindo que vai ser uma simples prática esportiva que pode ou não entrar de vez na nossa vida, e quando a gente vê nossas escolhas de rolés, viagens, amizades, valores e hábitos passam a ter ela como norte.

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